
No mundo conectado de hoje, a fama não precisa mais de um estúdio de Hollywood. Basta uma câmera de celular, um pouco de carisma e uma rotina diária para que uma criança se transforme em uma celebridade digital. O fenômeno dos ‘kids influencers’ é a manifestação mais visível e preocupante da adultização em nossa sociedade, levantando uma série de questões éticas, legais e psicológicas. O que acontece quando a infância é transformada em um negócio lucrativo, e os direitos à privacidade, à intimidade e à inocência são trocados por milhões de visualizações e contratos de publicidade?
A Fama como Fardo: O Preço da Exposição Precoce
A vida de um ‘kids influencer’ não é uma brincadeira. É um trabalho extenuante, com horas de filmagem, ensaios e a necessidade de manter uma performance constante para agradar o público e as marcas. O risco mais imediato é a exploração. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 60, proíbe o trabalho de menores de 16 anos, com exceção de aprendizes a partir dos 14. A atividade de influenciador, quando remunerada e sistemática, se enquadra nessa proibição. A lei exige um alvará judicial para a participação de crianças em trabalhos artísticos, mas esse requisito é quase sempre ignorado no universo digital, deixando a criança desprotegida e sem os direitos trabalhistas básicos.
A Perda da Privacidade e o Risco de Predação
O segundo grande risco é a perda total da privacidade. A vida de um ‘kids influencer’ se torna um livro aberto, exposto a um público vasto e anônimo. Os momentos de intimidade, as brincadeiras e até as crises de birra se tornam conteúdo para a web. Essa falta de limites não só viola o direito à privacidade, garantido pelo artigo 17 do ECA, mas também torna a criança um alvo fácil para criminosos. A hipervisibilidade atrai a atenção de predadores online que usam a imagem e as informações da criança para fins ilícitos.
As Consequências Psicológicas da Adultização Digital
A pressão para “dar certo” na internet e o bombardeio de comentários, positivos ou negativos, afetam profundamente o desenvolvimento psicológico. A auto-estima de uma criança se torna diretamente ligada ao número de likes, e a necessidade de ser “perfeita” para as câmeras pode levar a problemas de ansiedade, depressão e transtornos de imagem. A criança deixa de ser ela mesma e se torna um personagem, perdendo a oportunidade de formar uma identidade sólida e autêntica. O direito a um desenvolvimento saudável, um dos pilares do ECA, é brutalmente violado nesse processo.
O Papel dos Pais e a Culpa das Plataformas
A responsabilidade pela proteção da criança recai, em grande parte, sobre os pais, que, muitas vezes, são os principais impulsionadores dessa carreira. O ECA, em seu artigo 22, estabelece o dever de “guarda e proteção”. No entanto, o fascínio pelo lucro e pela fama leva muitos a esquecerem desse dever. As plataformas digitais, por sua vez, têm o dever de agir. Embora tenham políticas de proteção, seus algoritmos incentivam a produção de conteúdo por crianças, e seus sistemas de monetização lucram com a exploração. A falta de regulamentação e a omissão das plataformas tornam-nas cúmplices na adultização.
O fenômeno dos ‘kids influencers’ é um espelho de uma sociedade que valoriza a fama e o dinheiro acima da inocência e do desenvolvimento saudável. É urgente que a lei se modernize para enfrentar essa nova realidade, e que a sociedade, como um todo, repense se a “estrela” de hoje não é a vítima de amanhã. É hora de pararmos de consumir conteúdo que, essencialmente, promove a exploração infantil e de exigirmos que a infância seja um período de crescimento, e não um espetáculo. Você, como espectador, está disposto a fazer essa escolha?
