
As redes sociais criaram um novo tipo de comunidade, onde pais de todo o mundo compartilham as vidas de seus filhos em tempo real. O que para muitos é um ato de orgulho e de conexão, para outros é um campo minado de pressões e de expectativas sociais. A pressão social para que pais exponham seus filhos é uma realidade que impulsiona a adultização, transformando a infância de uma criança em um espetáculo público e vulnerável. Mas, de onde vem essa pressão, e como a lei protege a criança de ser vítima da necessidade de aprovação de seus próprios pais?
O ‘Sharenting’ e a Busca por Pertencimento
O fenômeno do “sharenting” (uma fusão das palavras em inglês “share” – compartilhar – e “parenting” – paternidade) é a principal manifestação dessa pressão. Pais sentem a necessidade de documentar cada marco do desenvolvimento de seus filhos — do primeiro passo à apresentação na escola — e de postá-lo nas redes sociais para a validação de seus amigos e seguidores. Essa validação se torna um ciclo vicioso: quanto mais likes, mais o pai sente que está fazendo um bom trabalho, e mais ele posta. O problema é que a criança, sem ter a maturidade para consentir, se torna um objeto de projeção e de validação, e não um sujeito de direitos.
A Questão Jurídica: O Conflito de Direitos
A exposição de filhos nas redes sociais cria um conflito jurídico entre o direito à liberdade de expressão dos pais e o direito à privacidade e à imagem da criança. A legislação brasileira, por meio do ECA e do Código Civil, já estabeleceu que os direitos da criança são prioritários. O ECA, em seu artigo 17, garante à criança o direito à “privacidade, à honra e à imagem”. Portanto, a vontade dos pais de postar uma foto não pode se sobrepor ao direito da criança de ter sua vida preservada. O Ministério Público pode intervir em casos de exposição irresponsável, e a criança, ao atingir a maioridade, pode até mesmo processar os pais por danos morais.
O Risco da Exposição e a Negligência Oculta
Além da violação de privacidade, a exposição irresponsável de crianças traz consigo um risco ainda maior: a vulnerabilidade a predadores. Informações sobre a escola, a rotina e até o local de moradia, quando expostas, podem ser usadas por criminosos. A pressão social para compartilhar pode levar os pais a cometerem uma forma sutil de negligência, que é não proteger a vida de seus filhos no ambiente virtual. O dever de proteção dos pais, garantido pelo artigo 22 do ECA, se estende a todas as esferas da vida, incluindo a digital.
Resista à Pressão
A pressão social sobre os pais para que exponham seus filhos é um reflexo de uma sociedade que valoriza a aparência acima da essência. A luta contra essa pressão exige um gatilho de responsabilidade por parte dos pais, que precisam se questionar sobre a real motivação por trás de uma postagem. Vale a pena trocar a privacidade e a segurança de seu filho por alguns likes?
A infância é um período sagrado, e não um álbum de fotos para a internet. Proteger a criança de uma vida pública precoce é um ato de amor e de coragem. É hora de resistir à pressão e de escolher o que realmente importa: a segurança e a felicidade de nossos filhos.
