
O Direito de Família, por muito tempo, baseou suas decisões em princípios legais e em avaliações psicológicas tradicionais. Hoje, uma nova e poderosa fronteira do conhecimento está começando a dialogar com os tribunais: a neurociência. Ao nos mostrar, de forma concreta, como o cérebro infantil se desenvolve e como ele é impactado pelo ambiente, a neurociência oferece uma fundamentação científica robusta para muitas das práticas que antes eram baseadas na intuição ou na psicologia comportamental. Entender o que a ciência do cérebro nos diz sobre as necessidades das crianças pode e deve influenciar as decisões sobre guarda, tornando-as mais informadas, precisas e, acima de tudo, protetivas.
Um dos insights mais importantes da neurociência é sobre o impacto do estresse tóxico no cérebro em desenvolvimento. Disputas de guarda de alta conflitualidade, com brigas constantes, agressões verbais e um ambiente de hostilidade, inundam o cérebro da criança com cortisol, o hormônio do estresse. A exposição crônica a altos níveis de cortisol pode danificar as conexões neurais e prejudicar o desenvolvimento de áreas cruciais como o hipocampo (ligado à memória) e o córtex pré-frontal (responsável pelo controle de impulsos e tomada de decisões). A neurociência, portanto, não apenas sugere, mas comprova cientificamente que um ambiente de baixo conflito é uma necessidade biológica para o desenvolvimento saudável da criança. Isso dá um peso ainda maior a soluções consensuais, como a mediação, e à guarda compartilhada cooperativa, em detrimento de batalhas judiciais litigiosas.
A neurociência também valida a importância da rotina e da previsibilidade na primeira infância (0 a 6 anos), como discutido no Artigo 2. O cérebro de um bebê e de uma criança pequena está em um processo frenético de construção de sinapses. A repetição e a rotina criam padrões neurais que geram uma sensação de segurança. Quando a rotina é constantemente quebrada, o cérebro da criança gasta uma enorme quantidade de energia tentando se adaptar ao caos, em vez de usar essa energia para o aprendizado e o desenvolvimento. Isso fundamenta cientificamente por que modelos como a guarda alternada pura, com trocas constantes de ambiente, são desaconselhados para crianças pequenas. A necessidade de um lar de referência e de uma rotina consistente não é um capricho, é uma condição para a arquitetura cerebral ideal.
Outro ponto fundamental é a comprovação do papel do afeto e do apego seguro na modulação cerebral. A interação afetuosa e responsiva com as figuras de apego (os pais) libera ocitocina, um neurotransmissor que promove sentimentos de bem-estar, confiança e conexão social, e que ajuda a regular a resposta ao estresse. Um genitor que é consistentemente afetuoso, presente e sintonizado com as necessidades emocionais do filho está, literalmente, ajudando a esculpir um cérebro mais resiliente e socialmente competente. Isso reforça a inadequação de se avaliar um “bom pai” apenas por sua capacidade financeira, e dá um peso ainda maior à análise da qualidade do vínculo afetivo e da disponibilidade emocional de cada genitor no momento de decidir a guarda.
A intersecção entre neurociência e Direito de Família ainda está em sua infância, mas seu potencial é revolucionário. Ela nos permite ir além do “achismo” e fundamentar as decisões sobre o futuro das crianças na ciência mais fundamental sobre como nos tornamos quem somos. Juízes, advogados, promotores e mediadores que se abrem a esse conhecimento estão mais bem equipados para tomar decisões que não apenas resolvam um conflito legal, mas que ativamente promovam a construção de cérebros mais saudáveis e, por consequência, de futuros adultos mais felizes e equilibrados. É o Direito se curvando à ciência para proteger, da forma mais eficaz possível, o nosso bem mais precioso.
