Dupla Residência: Como Funciona a Logística da Guarda Compartilhada no Dia a Dia

Já superamos o mito de que a guarda compartilhada significa dividir o tempo da criança de forma matemática. Entendemos que o foco é a divisão de responsabilidades. Contudo, para pais que conseguiram manter um alto nível de cooperação e que moram próximos, o conceito de “convivência ampla e equilibrada” pode evoluir para modelos mais arrojados e inovadores, como a dupla residência ou residência alternada. Essa não é a regra geral e nem se aplica a todos, mas quando funciona, pode proporcionar à criança uma sensação de pertencimento a ambos os lares de forma muito intensa. Este artigo é um guia para entender a logística e os desafios desse “próximo nível” da guarda compartilhada.

O modelo mais conhecido de dupla residência é o da residência alternada, no qual a criança passa períodos de tempo mais longos e equânimes em cada casa – por exemplo, uma semana com o pai, uma semana com a mãe. Embora a ideia de “50% do tempo para cada um” seja atraente, é um arranjo que exige pré-requisitos muito específicos para dar certo sem desestabilizar a criança. O primeiro é a proximidade geográfica: os pais precisam morar no mesmo bairro ou em bairros vizinhos, para que a rotina escolar, as atividades extracurriculares e o círculo de amizades da criança não sejam prejudicados. O segundo, e mais importante, é uma comunicação excepcional e um nível de cooperação altíssimo entre os pais. Qualquer conflito ou falta de alinhamento pode tornar a vida da criança um caos.

Para que a logística da “mala pronta” não se torne um fardo, a organização é a palavra-chave. O ideal é duplicar o máximo de itens essenciais, de modo que em ambas as casas a criança tenha seu próprio pijama, uniforme escolar, escova de dentes, brinquedos e material de estudo. Isso diminui a sensação de ser uma “visita” e reduz o estresse de ter que transportar uma grande quantidade de coisas a cada troca. Ferramentas tecnológicas são grandes aliadas: um calendário online compartilhado (como o Google Calendar) é fundamental para que ambos os pais estejam cientes de provas, consultas médicas, festas de aniversário e outros compromissos. Da mesma forma, um grupo de WhatsApp focado exclusivamente em assuntos dos filhos pode agilizar a comunicação diária e evitar mal-entendidos.

Um modelo ainda mais inovador, embora raro no Brasil devido ao alto custo, é o chamado “Ninho” (Nesting). A lógica aqui é invertida: em vez de a criança ter duas casas, ela tem apenas uma, a casa da família. São os pais que se mudam. Em suas respectivas semanas, pai e mãe se revezam, mudando-se para a casa principal para cuidar dos filhos, enquanto mantêm suas próprias residências particulares para a semana em que não estão “de plantão”. A principal vantagem é a máxima estabilidade para a criança, que não sofre com a adaptação a diferentes ambientes e rotinas. A desvantagem evidente é o custo financeiro exorbitante para os pais, que precisam manter, ao todo, três lares. Além disso, exige um grau de respeito mútuo e desapego ao espaço que poucos ex-casais conseguem manter.

Independentemente do modelo logístico escolhido – seja a residência de referência com ampla convivência, a residência alternada ou o ninho –, o fator mais determinante para o sucesso não é o cronograma, mas a atmosfera. A chave para o bem-estar da criança é a previsibilidade de sua rotina e a ausência de conflito durante as transições. As trocas de casa devem ser momentos neutros e tranquilos, e jamais uma oportunidade para um dos pais interrogar a criança sobre o que aconteceu na “outra casa”. Não existe um arranjo perfeito que sirva para todas as famílias. A melhor logística é sempre aquela construída sob medida, que prioriza a paz e a segurança emocional da criança acima dos desejos e conveniências dos adultos.

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