
A decisão sobre a guarda foi tomada. Para os pais, pode ser o fim de um período de incerteza. Para os filhos, é o início de uma nova e, muitas vezes, assustadora realidade. A forma como as crianças são preparadas para essa transição – seja a rotina de duas casas na guarda compartilhada ou a nova dinâmica da guarda unilateral – é um fator determinante para sua adaptação e bem-estar emocional. A comunicação honesta, a empatia e a criação de um ambiente previsível são as ferramentas essenciais para guiar os filhos através dessa mudança profunda com o mínimo de trauma possível. A abordagem, contudo, deve ser cuidadosamente adaptada à idade e à maturidade de cada criança.
Para crianças pequenas (de 2 a 6 anos), o conceito de tempo e de “duas casas” é abstrato. A segurança delas reside na rotina e na presença física dos cuidadores. A preparação deve ser concreta e sensorial. Use calendários visuais, com cores ou desenhos, para mostrar os dias que a criança passará em cada casa. Isso torna a rotina previsível e tangível. É fundamental que ambos os lares tenham objetos familiares e duplicados (brinquedos, pijamas, escova de dentes) para criar um senso de pertencimento e diminuir a sensação de ser um “visitante”. A despedida e o reencontro devem ser momentos rápidos, positivos e sem demonstrações de tristeza ou conflito por parte dos pais, pois a criança absorve essa tensão. A mensagem principal deve ser simples e repetida constantemente: “O papai e a mamãe te amam muito. Agora você terá dois quartos cheios de amor”.
Para crianças em idade escolar (de 7 a 12 anos), a compreensão é maior, mas também surgem novas preocupações: a logística com os amigos, a escola, as atividades extracurriculares. A preparação deve ser focada na honestidade e na validação dos sentimentos. É importante que ambos os pais, de preferência juntos, conversem com a criança sobre a nova rotina, explicando como ela vai funcionar na prática. Abra espaço para que ela faça perguntas e expresse seus medos (“E meus amigos? E meu videogame?”). É crucial validar seus sentimentos, dizendo frases como “Eu entendo que você está triste/com raiva com essa mudança. É normal se sentir assim.” Envolver a criança em pequenas decisões, como a decoração de seu novo quarto ou a organização de seus pertences na outra casa, pode lhe dar uma sensação de controle e pertencimento que é muito reconfortante.
Com os adolescentes (a partir dos 13 anos), a abordagem muda de comunicação para negociação. Eles precisam sentir que sua opinião e sua autonomia são respeitadas. A preparação envolve incluí-los ativamente na construção da nova rotina de convivência, como já discutimos. A conversa deve ser franca e direta, reconhecendo o impacto que a mudança terá em sua vida social e escolar. A chave é a flexibilidade. Em vez de um calendário rígido, o ideal é criar um sistema que possa ser ajustado semanalmente de acordo com as provas, os treinos e os compromissos sociais do jovem. O mais importante é garantir que, independentemente de onde ele durma, as regras e os limites fundamentais (horários, estudos, responsabilidades) sejam consistentes em ambas as casas, e que o canal de diálogo com ambos os pais permaneça sempre aberto.
Independentemente da idade, a mensagem mais poderosa que os pais podem transmitir durante essa transição é a de uma frente unida e amorosa. A criança precisa ver e sentir que, embora seus pais não sejam mais um casal, eles continuam sendo uma equipe parental forte e dedicada a ela. Evitar críticas ao outro genitor na frente do filho e demonstrar respeito mútuo são atitudes que criam um escudo de segurança emocional para a criança. A preparação para a nova rotina não é um evento único, mas um processo contínuo de diálogo, ajuste e, acima de tudo, de reafirmação constante do amor incondicional que ambos os pais sentem por ela.
