
Na era das redes sociais, a validação se tornou uma métrica digital. Likes, comentários e visualizações são o novo “aplauso”, e a busca por essa aprovação se tornou um vício perigoso para crianças e adolescentes. O que começa como um desejo inofensivo de compartilhar um momento se transforma em uma competição por popularidade, onde a criança é incentivada a agir de forma cada vez mais adulta para atrair a atenção do público. A adultização por likes é um fenômeno silencioso, mas com efeitos devastadores, que rouba a autoestima e a autenticidade de uma geração.
A Infância como Performance: A Validação Externa Acima de Tudo
A adultização por likes transforma a infância em uma performance contínua. As brincadeiras, as roupas e até os sentimentos da criança são moldados para caber em um post que gere engajamento. Ela aprende que seu valor não reside em quem ela é, mas em quantos corações virtuais ela consegue colecionar. Isso leva a um comportamento de imitação de adultos: poses, expressões e até mesmo a forma de falar são adaptadas para o padrão “influencer” que é valorizado pelo algoritmo. O ECA, em seu artigo 17, garante à criança o direito à dignidade e ao respeito, mas essa dignidade é brutalmente violada quando a autoestima se torna dependente de aprovação externa.
Os Riscos Psicológicos da Validação Frágil
A busca incessante por likes tem consequências psicológicas profundas. O cérebro da criança, ainda em desenvolvimento, não está preparado para lidar com a ansiedade da “contagem de seguidores”. A autoficção (a criação de uma persona online que não corresponde à realidade) e a comparação constante com a vida “perfeita” de outros perfis são gatilhos para problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade. O medo de “não ser suficiente” se torna uma sombra que persegue a criança, e o silêncio de um post sem likes pode ser interpretado como rejeição, causando um dano emocional real.
A Omissão Jurídica e a Necessidade de Legislação Específica
Embora a lei brasileira não tenha um artigo específico sobre “adultização por likes”, o ECA e o Código Penal podem ser aplicados em casos extremos de exploração. O Ministério Público pode intervir em situações em que a busca por aprovação digital leva à exploração do trabalho infantil ou à exposição perigosa da criança. No entanto, é necessário que a legislação se modernize para incluir a responsabilização das plataformas que, com seus algoritmos, incentivam essa corrida por likes e contribuem para a vulnerabilidade psicológica de crianças e adolescentes.
Um Convite à Reflexão: O Valor do Autoconhecimento
Para combater a adultização por likes, é preciso que a sociedade, e principalmente os pais, mudem a perspectiva. Em vez de perguntar “quantos likes seu post teve?”, devemos perguntar “você se divertiu?”. O valor de uma criança não está no que ela posta, mas em quem ela é. Incentivar hobbies offline, o convívio social e o desenvolvimento de habilidades que não dependem da validação online são passos cruciais para que a criança construa um senso de valor sólido e duradouro.
A adultização por likes é um reflexo de uma sociedade que valoriza a imagem e a superficialidade. É hora de reverter essa tendência e de mostrar às nossas crianças que a verdadeira felicidade não está na tela, mas na vida real, onde o valor de uma pessoa não se mede em curtidas, mas em respeito e afeto. Você está disposto a desligar a câmera e se conectar com seus filhos no mundo real?